"living is easy with eyes closed..."

O QUE É BOM DURA POUCO

2008-02-06 00:17

Com alguns meses de atraso, quero manifestar minha indignação em relação ao público americano, responsável pelo cancelamento de Studio 60 On The Sunset Strip. Aproveitei o feriado de Carnaval para terminar a 1° e única temporada da série e o melhor adjetivo para descrevê-la é PERFEITA! Drama e comédia na medida certa, com diálogos e piadas inteligentíssimas e uma abordagem crítica de questões sérias como a atuação americana no Oriente Médio depois do 11 de setembro faziam de Studio 60 uma ilha de qualidade entre os seriados americanos. Porém, como todo produto televisivo de qualidade, não caiu nas graças do público americano, mostrando que a preguiça mental é padrão dominante não só aqui no Brasil (Big Brother, novelas, Zorra Total), mas também no reacionário Tio Sam.

Studio 60 pode ser considerada uma metasérie, pois trata da correria e dos problemas que envolvem a produção de um programa semanal de comédia ao vivo . Claramente e descaradamente inspirado em Saturday Night Live, a série mostra os bastidores do programa, dando ênfase em pontos como a transformação de colegas de trabalho em família devido ao tempo que passam juntos. Também é mostrada a angústia de ter um prazo desumano para a criatividade (explicitado no enorme relógio com a contagem regressiva para o próximo programa), o que faz com que as pessoas envolvidas no processo por vezes surtem. Tudo isso contado por diálogos ácidos cheios de citações à política, à religião e ao american way of life.

Para os órfãos de Friends, a volta de Matthew Perry às telas é um deleite. O eterno Chandler dá mais uma prova de seu talento, mostrando que, além de ser um ótimo comediante, também consegue emocionar nos momentos mais dramáticos, revelando uma profundidade ainda desconhecida do grande público. Fazendo dupla com Bradley Whitford, os dois fazem uma dupla carismática num seriado cheio de grandes talentos (o episódio 17, The Disaster Show, mesmo sem a presença da dupla de protagonistas, é um dos melhores da temporada). No entanto, O roteiro é o ponto forte da série. Aaron Sorkin, apesar de ser criticado por fazer da série quase uma autobiografia (vide o affair entre Matt e Harriet, inspirado na sua relação com a atriz Kristin Chenoweth, de West Wing), consegue com habilidade inserir seu ponto de vista, liberal e identificado com o partido democrata, sob um manto de leveza e sátira. Apenas nos últimos 4 episódios da temporada, Sorkin resolve chutar o balde e cutucar de forma direta a principal ferida republicana: o absurdo da infinita Guerra do Iraque. E é aí que o seriado, ao mesmo tempo que sofre um salto de qualidade, expressa o motivo mais provável de sua extinção, segundo à audiência, que caiu vertiginosamente justamente nesses episódios. Prova de que a verdade é quase sempre mal recebida.

Enfim, Studio 60 é uma pérola que os porcos rejeitaram. Se você gosta de ver um programa que lhe faça pensar e que não lhe subestime, vai a minha dica. Sâo apenas 22 episódios e a série termina mesmo, sem deixar cliffhangers. E pra quem quer uma provável explicação do porquê Studio 60 foi cancelada, recomendo este interessante artigo do Guardian. Recomendo, mas não concordo com quase nada...

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